Há 10 anos eu tive uma grande chance de recomeçar e de ver a vida com mais amor.
De repente você pode estar feliz porque era quase o fim das férias e não via a hora de estar com os amigos. Mas sua vida é interrompida quando vai as compras do mês com seus pais. Um passeio normal, comum. E aí, você se pergunta: "por quê?"
Acontece. Não tem como voltar. Foi num piscar de olhos. E agora?
Precisa ser forte, e lidar com a dor e com o desconhecido. Eu nunca tinha entrado dentro de uma ambulância, nem tinha ainda quebrado se quer um osso, mesmo sendo uma criança desastrada, eu só conseguia me ralar os joelhos e um dia, consegui a proesa, de descer a rampa de concreto da casa onde eu ficava para minha mãe trabalhar, e ralar meu rosto.
A rotina, mudou. Meu quarto mudou-se para o quinto andar do hospital, e eu me vi rodeada de gente. Afinal eu precisava daquelas pessoas, de ajuda e de muito, mas muito, amor. E eu tive.
Senti dores, que nem pensava que poderia sentir. Superei coisas que jamais pensei que poderia existir para serem superadas. Mostrei a mim mesma que eu sou fortaleza, e tirei forças até de onde eu nem sabia que tinha.
Na verdade, eu pensei que tudo iria ficar bem, ali na hora. Ingenuidade pura de quem já tinha passado por algumas e não sofreu nenhum aranhão.
Mas não foi assim. É um processo que leva uma vida. E a vida não para.
A recuperação foi lenta, um ano de tratamento intenso, fisioterapia, cirurgias e cuidando do meu emocional para conseguir continuar. Quando voltei a andar, eu parecia que tinha andado pela primeira vez, digo que foi a sensação mais doida da minha vida... eu tinha desaprendido. Como que alguém esquece de como se anda? Pois é... a vida tem dessas.
E cá estou eu, 10 anos depois, remendada. Com a minha história desenhada em meu corpo. Levei anos para conseguir conviver e não me derramar em lágrimas ao contar, quando perguntada. Levei anos para sair de shorts para justamente, evitar os olhares e as perguntas. Hoje eu conto tranquilamente, o que não quer dizer que está tudo bem sempre... não, as vezes eu desabo ao me olhar no espelho, ao vestir uma roupa, ao me comparar e ao sentir que minhas limitações me atrapalham em alguns momentos.
Mas sabe, eu não teria me tornado tudo que eu sou, se não fosse isso tudo que eu passei. Eu olhei para mim, e sem pena, e escolhi continuar. Entre trancos e barrancos, porque tudo na vida é um processo, e a aceitação acontece todos os dias. Todos os dias eu me aceito, por não me enquadrar no padrão, por não procurar a aceitação do outro e me liberto para ser e mostrar quem eu sou.
Eu tive medo. Medo de me relacionar, medo de amar e medo de ser amada. Medo de viver coisas que pudessem me machucar ainda mais. Mas mais medo eu tive de não viver a vida e não aproveitar tudo que está guardado para mim. Porquê eu fiquei e eu me recuperei. Eu mostrei a mim mesma que é possível e que ficar parada não é opção.
Foi na fraqueza que consegui enxergar a minha fortaleza. Eu sei que não da pra ser forte o tempo inteiro, e eu nem quero, o quê eu quero mesmo é viver intensamente, como eu aprendi.
E meu deus, como eu aprendi... eu fiquei me perguntando se eu merecia tudo isso, realmente, eu acredito que depois que acontece não vale o questionamento, então, eu peguei o pé de limão e fiz uma baita limonada, e resolvi que iria compartilhar um pouco de mim, da minha forma, simples de ser.
Aos poucos eu vou indo, sem me esquecer que meu maior tesouro, é a vida que bate e pulsa dentro de mim.

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